"Podemos não gostar, mas é importante parar de vez em quando . Abandonar as nossas ideias e ver o quadro geral . Na verdade, descobrir que olhamos as coisas de maneira errada consegue ser libertador.
E de repente vemos um novo potencial , novas potencialidades onde nunca tínhamos visto antes .
E é bom quando uma situação má de repente parece ter uma possibilidade.
Infelizmente...por vezes acontece o oposto!" A.G
De uma certa forma tudo de resumiu a isto. A parar... a ter a possibilidade de ver tudo de outra perspectiva, sair da roda viva, do piloto automático, deixar de ir atrás dos outros, assumir que na maior parte dos momentos da minha vida, fui fraca, fui atrás das vontades e desejos dos outros. Com a ilusão que se isso fazia os outros felizes também me iria fazer a mim feliz. Isso aconteceu em pequenos momentos, mas no final o sentimento que ficava cá dentro não era o de felicidade plena, porque afinal aquilo não correspondia à minha vontade, ao meu desejo, ao meu sonho, à minha necessidade.
Quase que num recomeçar consegui ver muitas destas coisas...
Consegui alcançar aquilo que durante meses de terapia tentei alcançar... e que me fui aproximando cada vez mais mas sem conseguir chegar a um finalmente.
E o afastamento permitiu-me ver....
Sei que pode parecer difícil de entender a minha decisão.
Mas ao fim de 32 anos, percebi que isto da vida não tem a ver com os planos que fazemos...
Todos estes anos fui tendo os planos... as expectativas....
Fui para a universidade, sonhei em concluir o curso nos 4 anos...e logo aqui tudo começou a desviar...
Não foram 4...foram precisos mais alguns....
Nesses alturas namorei... namorei pela primeira vez, entreguei-me, dei tudo o que tinha, o que fui tendo, o que fui aprendendo, com todos os erros de quem o faz pela primeira vez... teve um fim... teve um reinicio e quando terminou vou bastante pior que da primeira vez. Quando entrei nesta segunda oportunidade entrei a acreditar que desta vez era a sério, para levar até ao fim... e se da primeira vez amei, da segunda amei com tudo, acreditei que estava finalmente a entrar novamente no meu plano e que tudo se ia construir, que iríamos numa questão de pouco tempo estar juntos, morar juntos, casar quem sabe, mas certamente ter os nossos filhos. Os filhos que sonhei ter. Iria ter a Vida dentro de mim...
Acho que nunca fui tão feliz como nessa altura em que acreditava que tudo isto ia mesmo acontecer.
Tive nesse intervalo de tempo arriscado, tinha vindo para Lisboa, tinha conseguido um trabalho decente à custa de muito sacrifício e de nunca desistir de procurar algo melhor.
Estava feliz.... e talvez por esse motivo tenha sido tão difícil de ultrapassar tudo o que veio a seguir,
Quando ouvi a frase :"Temos de falar" no fundo da minha ignorante e ingénua felicidade pensei... ele vai pedir me em casamento!!!Este foi o primeiro pensamento que tive... mas logo percebi pela cara que era bem longe disso. Levantei-me da cama, tomei um banho, chorei o tempo todo mesmo sem saber qual era o tema da conversa, mas algo cá dentro se antecipou a tudo o que ia ouvir a seguir.
E ter de ouvir a pessoa com quem sonhei ter tudo na vida a dizer-me "apaixonei-me por outra pessoa" foi o momento mais surreal da minha vida.Essa era a frase que esperei 8 anos para ouvir sobre mim, nunca a tinha ouvido antes e de repente, do alto da minha felicidade ( e depois vi que era sim a maior das minhas ilusões) tudo era falso.
Como se supera isto?
Como se desconstroi tudo aquilo que se criou cá dentro, como se volta a acreditar?
Percebo que ao fim destes anos isto ainda está presente aqui dentro, e sei qual o motivo... porque não voltei a amar da forma que amei, porque não voltei a entregar-me, a sonhar da forma que sonhei. Voltei a gostar de alguém, mas não sonhei, não projectei os meus desejos nessa relação que foi vazia e desprovida de sinceridade de um das partes. E voltei a sofrer.
Ok... se tudo isto fracassou vou me entregar ao trabalho, vou batalhar por ter sucesso, por vencer, por crescer, por melhorar a minha vida pelo trabalho, pela minha carreira profissional.
Lutei, dei tudo para conquistar algo que na altura era tudo o que mais queria... ficar efectiva.
Quase enlouqueci nesse Verão.
Consegui superar... mas ficaram as mazelas....
E depois tudo começou a ser diferente.
Talvez por consequência dos tempos, tudo passou a ser insuportável, comecei a sentir a cada dia que passava que nada daquilo era para mim, que tudo era uma tortura,
Senti-me enganada é verdade.Criei expectativas sobre as pessoas que depois foram defraudadas, sofri horrores por isso, senti na pele, na alma e pior que tudo no bolso,E isso deixou em mim uma mágoa que nunca irei esquecer.
Seguiram-se ano e meio de muita revolta, muita dor, muita angústia, um brutal sofrimento diário.Dei comigo num buraco negro, fundo, gelado... que ninguém nunca entendeu, a maioria nunca se apercebeu. Provavelmente porque não era para ser entendido, senão por mim. E mesmo eu demorei bastante tempo a perceber, a descobrir como sair desse buraco.
Mas a verdade é que arrasou comigo de uma forma que nunca acreditei que fosse possível.
Muita coisa misturada, muitas pessoas, tantas confusões e tantos momentos difíceis....
E tudo culminou quando em Setembro do ano passado vivi os piores dias da minha vida, obcecada com um único pensamento...o fim.
Passei dias a fio a pensar na melhor forma de terminar com a minha angústia, a angústia das pessoas que magoei.
Cheguei um dia a pôr-me a caminho da dita ponte....não tive felizmente a coragem para isso, apenas por 3 motivos, por 3 pessoas que não mereciam de forma alguma passar por tal dor. E preferi manter eu a minha dor para evitar a deles.
E resolvi que tinha de resolver a minha dor...
Na semana seguinte pedi para mudar de local de trabalho.
Fiz aquilo que durante meses a minha psicóloga me disse - "agarre a sua vida, tome as decisões, faça por si, não deixe que sejam os outros a decidir a sua vida".
E mesmo não tendo acontecido o que eu pedi que era ir para Leiria, uma mudança realmente aconteceu, uma mudança para melhor, que me deu alento. Não para aliviar a angústia e a revolta deste trabalho, mas alento para repetir. Repetir isto de assumir o controlo da minha vida.
Ser eu a decidir o que vai acontecer, ou pelo menos em que direcção vou seguir.
E no final do ano tal como tinha prometido a mim mesmo, ao longo do ano e das sessões, até ao final do ano algo radical teria de acontecer na minha vida, teria de tomar uma decisão, não podia continuar nesta angustia de estar onde não quero, fazer o que não gosto, não ter o que me faz feliz...mesmo não sabendo ao certo o que me faz feliz... mas tendo a certeza do que decididamente tudo isto me faz muito infeliz.
E uma ideia que primeiro foi uma brincadeira se tornou num: porque não??
E porque não???
Todos os meus planos falharam, o fim grandioso da universidade, o emprego de sucesso, a vida sentimental, o grande amor, o casar, o ter os meus filhos, ter a minha casa onde receber os amigos, o viajar....
Não era o sonho da vida perfeita, sem dificuldades e sem percalços, claro que não... mas era o chegar aos 32 anos e já ter pelos menos alguma coisa de tudo isto!! A e tal tens 32 anos...és nova... não é bem assim...já era mais que tempo de ter alguma coisa....
Não sinto que tenho,,,sinto-me no casa de partida...no zero...
Continuo a ambicionar tudo da mesma forma, quero muito ser feliz, apaixonar-me, amar alguém, engravidar, sentir nos meus braços os meus filhos.
Mas preciso de fazer mais por mim.... e fazer mais por mim neste momento não passa por ficar aqui, a fazer contas à vida, aos tostões, a sentir sempre que o meu lugar não é aqui.
Talvez a vida me tenha dado tantos limões e eu sempre a querer laranjas... e claro nunca a conseguir ser feliz por sentir que nunca tive o que quis e sonhei.
Talvez seja tempo de agarrar nos últimos limões e fazer com eles uma excelente e doce limonada...
Vou aproveitar aquilo que a vida não me permitiu e vou aproveitar o que não tenho....
É arriscado...claro que é!!
É começar de novo... mas e depois... entre começar de novo e continuar no zero... ao menos dou a mim mesma uma nova hipótese... acho difícil ficar pior do que estou...
claro que me custa brutalmente ir para tão longe... ficar longe dos meus pais e da minha irmã... claro!!
Não faço isto de ânimo leve... mas não posso não abdicar disso e deles em prol do que tenho agora que não é nada!!!
Não posso ficar presa a uma vazio....tenho de ir tentar!!
Se não resultar... pelo menos tentei...assumi as rédeas da minha vida e corri os riscos que tinha de correr... mas estarei nessa altura orgulhosa de ter conseguido aquilo que andei meses a batalhar para mudar em mim... o AGIR!!Fazer algo por mim mesma.
E neste momento e sentir-me com forças para agir deixa-me de tal como feliz que me faz acreditar que vou conseguir, que vou ser feliz, que vou conquistar muitas coisas e que vou sentir que vai valer a pena.
Não levo grandes ambições para além da ambição de ser feliz... de me sentir bem comigo mesma, se sentir que poderei ser eu, de sentir que estarei a fazer tudo por mim...que estarei de uma vez por todas a assumir as rédeas da minha vida...e que tudo o que acontecer daí em diante será fruto do meu trabalho, da minha dedicação.
Eu ACREDITO e preciso que vocês também acreditem.